Os ataques que eliminaram o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, e membros da cúpula militar do país, seguidos por retaliações com mísseis e drones, marcaram uma escalada sem precedentes no conflito do Oriente Médio. Nos mercados financeiros, a reação imediata foi um salto nos preços do petróleo, impulsionado pelo temor de um fechamento do Estreito de Ormuz, passagem crítica para cerca de 20% do petróleo consumido globalmente. No entanto, para a gestora Kinea, o estresse nos mercados deve ser passageiro, com o risco geopolítico já amplamente precificado e um cenário de oferta global ainda frouxo.
Evento esperado reduziu a incerteza e permitiu modelar o risco
Ruy Alves, sócio e co-gestor de multimercados da Kinea, argumenta que a tensão, embora grave, era um cenário esperado pelos mercados. “Quando você não consegue modelar o risco, pede prêmio de risco alto. Agora você pode modelar o risco”, afirma. Segundo sua análise, a materialização do conflito, por mais trágica que seja, retirou parte da incerteza que pairava sobre os investidores, que agora podem avaliar com mais clareza as probabilidades e os impactos reais. Essa perspectiva contraria a visão de pânico inicial, sugerindo que o mercado já havia incorporado um “prêmio de guerra” nos preços dos contratos futuros antes mesmo dos eventos se desenrolarem.
Estoques elevados no mar contêm pressão de alta nos preços
O fator decisivo para conter uma disparada sustentada do petróleo, na visão da gestora, é o quadro de oferta. Alves destaca que há volumes excepcionalmente altos de petróleo estocado em navios-tanque ao redor do mundo, especialmente de origem russa e iraniana. “Tem muito petróleo parado no mar. Está sobrando petróleo”, relata o gestor. Essa situação cria um colchão físico que mitiga o impacto de eventuais interrupções de curto prazo no fluxo. Enquanto o mercado futuro reagiu com volatilidade, o mercado físico de petróleo, onde o barril real é negociado, permanece “extremamente frouxo”, indicando uma desconexão entre o sentimento financeiro e a realidade da oferta e demanda.
Reação do mercado foi forte na abertura, mas se dissipou rapidamente
Os números corroboram a tese. Os preços do petróleo chegaram a subir 12% na abertura dos negócios no domingo à noite, refletindo o susto inicial. No entanto, as cotações fecharam a segunda-feira com uma alta muito mais moderada, com o WTI negociando próximo a US$ 71 e o Brent a US$ 78. Curiosamente, mesmo após o anúncio iraniano de um fechamento total do Estreito de Ormuz – informação posteriormente desmentida pelos Estados Unidos –, os mercados futuros não registraram uma volatilidade extrema. Esse comportamento sinaliza um ceticismo do mercado em relação à capacidade ou à vontade do Irã de sustentar um bloqueio efetivo.
Fechamento do Estreito de Ormuz é considerado improvável
A Kinea parte do princípio de que o Irã, apesar das ameaças, não será capaz de fechar o Estreito de Ormuz de forma duradoura. Alves lembra que o canal nunca foi completamente bloqueado, nem mesmo durante a longa guerra Irã-Iraque (1980-1988) ou na invasão do Iraque em 2003. A expectativa da gestora é de uma normalização gradual dos fluxos marítimos à medida que as empresas navais recalculem os custos adicionais de seguro e guerra. Um fechamento prolongado – por mais de 40 dias, conforme apontado por algumas análises – poderia, de fato, causar escassez global. No entanto, a probabilidade atribuída a esse cenário é baixa.
Cenário só mudaria com uma escalada drástica das hostilidades
Para justificar uma revisão dessa visão e um repricing agressivo do petróleo, seria necessária uma escalada muito mais significativa. Ruy Alves enumera dois possíveis gatilhos: um ataque iraniano bem-sucedido e recorrente contra a infraestrutura de produção de petróleo em países vizinhos como Arábia Saudita ou Emirados Árabes Unidos; ou a implementação de uma estratégia de guerrilha marítima persistente no Estreito de Ormuz, similar aos ataques de grupos aliados ao Irã no Mar Vermelho. Na ausência desses elementos, o viés é de um petróleo mais fraco, e não mais forte, no médio prazo.
Impacto na inflação do Brasil e dos EUA deve ser limitado
Com a expectativa de preços estáveis ou em tendência de baixa para o petróleo, o impacto inflacionário da crise atual deve ser contido. Isso é crucial para o Brasil, que se prepara para iniciar um ciclo de cortes na taxa Selic. O gestor da Kinea concorda com a avaliação de autoridades, como o secretário do Tesouro Rogério Ceron, de que o Banco Central não deve alterar sua direção de política monetária por movimentos pontuais da commodity. “O Banco Central não pode mudar a direção a cada movimento de US$ 10 no petróleo, tem que ser dono do seu ciclo. Estamos com uma taxa de juros emergencial”, pondera Alves. A menos que o preço subisse de forma estrutural para patamares muito acima dos US$ 85, o balanço de riscos da autoridade monetária permaneceria inalterado.
Posicionamento da gestora e visão para outros ativos
Antecipando a alta inicial no petróleo decorrente do evento geopolítico, a Kinea encerrou posições vendidas (short) que mantinha na commodity antes dos ataques. No mercado de câmbio, a casa destaca que o real brasileiro já possui um “carrego elevado” (diferença positiva entre juros local e exterior) e não vê razões estruturais para uma mudança relevante no curto prazo. Na bolsa brasileira, a estratégia tem sido se proteger (hedge) via índices e buscar oportunidades específicas no meio da carteira do Ibovespa, evitando os papéis que foram excessivamente inflados pela entrada maciça de capital passivo (de fundos indexados).
Inteligência Artificial permanece como tema estrutural principal
Apesar do ruído geopolítico, Ruy Alves adverte que os investidores não devem perder de vista o que ele considera o verdadeiro tema transformador dos mercados no longo prazo. “Inteligência artificial. Esse é o tema que realmente muda empresas, empregos e o cenário de investimento.” Para o gestor, enquanto choques de oferta no petróleo causam volatilidade cíclica, a revolução da IA representa uma mudança estrutural e secular, com potencial para redefinir setores inteiros da economia e criar novas dinâmicas de crescimento e produtividade, que devem ser o foco principal da alocação de capital.
A dinâmica do mercado de commodities, como resume Alves, é implacável em sua simplicidade: “Commodity é diferente de ação. Quando não tem, o preço sobe muito rápido. Quando sobra, o preço vai muito rápido para baixo”. No momento atual, com estoques flutuantes recordes e uma capacidade ociosa significativa entre alguns produtores, a equação aponta mais para a segunda opção. A menos que o conflito no Oriente Médio dê um salto qualitativo imprevisto, o petróleo parado no mar continuará a ser um peso decisivo contra qualquer tentativa de sustentar preços em patamares de crise permanente.

