A indústria canadense de games, que viu seu tamanho dobrar entre 2013 e 2022, chega a 2024 em um ponto de inflexão. O XP Game Summit, realizado em Toronto em sua quinta edição, serviu como um termômetro preciso para medir o pulo de um setor que, como tantos outros ao redor do mundo, foi profundamente sacudido pela ressaca pós-pandemia e por decisões estruturais questionáveis. O evento, irmão do tradicional Montreal International Game Summit, revelou mais do que números: revelou uma indústria em processo de reinvenção, deixando para trás o modelo de crescimento desenfreado e abraçando uma identidade mais enxuta, colaborativa e orientada por dados.
O fim da era de incentivos indiscriminados e o preço da instabilidade
Nos anos anteriores, o Canadá se consolidou como um polo de desenvolvimento global, atraindo gigantes como Ubisoft e Embracer Group com generosos incentivos fiscais. No entanto, esse modelo, criticado por dirigir recursos desproporcionalmente para multinacionais do triple-A sem oferecer proteção adequada aos trabalhadores, mostrou suas fragilidades. O resultado foi uma sequência de eventos traumáticos: o fechamento da Onoma (antiga Square Enix Montreal) pelo Embracer Group e o encerramento da Ubisoft Halifax, ocorrido logo após a sindicalização do estúdio — uma coincidência que a empresa nega, mas que acendeu alertas em toda a comunidade. Esse cenário alimentou um pessimismo evidente entre os participantes do XP Summit em relação ao futuro do desenvolvimento triple-A no país. Mas, surpreendentemente, o clima geral no evento não era de derrota, e sim de cauteloso otimismo, ancorado no reconhecimento de que o jogo mudou.
Não é recuperação, é transformação: a nova identidade da indústria
Jason Lepine, fundador do XP Summit, foi direto ao ponto: o que está acontecendo não é uma recuperação, mas uma transformação profunda. “Não é um retorno à indústria antiga. É uma nova indústria, com uma nova identidade”, afirmou. Essa identidade, segundo ele, é construída em torno de times menores, capazes de se mover rapidamente e, acima de tudo, de validar seu próprio potencial de mercado antes mesmo de buscar investimento externo. O discurso ressoou em toda a conferência. Jason Della Rocca, cofundador da Excution Labs, cunhou o termo “A Nova Linha do Tempo para o Sucesso Indie” em sua palestra, defendendo uma mudança de mentalidade fundamental: “Publishers e investidores não são mais seus clientes. Eles só estão dispostos a investir com base em evidências. Wishlists, visualizações de trailer, uma comunidade engajada — isso é o que importa hoje.”
O paradoxo do financiamento: é preciso ter dinheiro para gerar provas
A virada de chave, no entanto, não é simples. Della Rocca reconheceu o paradoxo central da nova dinâmica: você precisa de financiamento para gerar as evidências de mercado que, por sua vez, são exigidas para conseguir o financiamento. Nesse cenário, o Canada Media Fund (CMF) surge como um ator crítico, mas não isento de controvérsias. O fundo permite que estúdios menores estendam seu runway e desenvolvam produtos viáveis antes de recorrer a formas tradicionais de capital, um diferencial importante diante dos custos trabalhistas comparativamente altos do Canadá. No entanto, Kristian Roberts, da Nordicity, argumentou que o CMF precisa evoluir: “Historicamente, o foco era fabricar produtos, não necessariamente produtos comercialmente viáveis. Essa distinção é crucial. Se o sistema de apoio não incentiva decisões orientadas ao mercado, não estamos gerando sucesso sustentável.” O novo Commercial Third Party Investment Fund do CMF, que financia projetos que já possuem investimento de terceiros como prova de viabilidade, parece um passo nessa direção. Mas, ironicamente, em um evento onde o investimento de terceiros era visto como cada vez menos atraente em comparação com a autopublicação, o fundo foi recebido com ceticismo por vários desenvolvedores.
Shum Sing, diretor administrativo da Agnito Capital, resumiu a tensão durante a mesa redonda “State of Game Funding”: “O modelo de financiamento está quebrado. Investidores não querem correr riscos até que você tenha tração demonstrável, mas nesse ponto você se pergunta: por que eu preciso de você? Posso conseguir um empréstimo bancário ou trabalhar com agências de marketing menores. Há opções para desenvolvedores independentes contornarem o investimento.” Apesar da aparente confiança, a realidade no chão de fábrica era mais dura. Andrew Carvalho, cofundador da Laundry Bear, trouxe a perspectiva de quem está na linha de frente: “Os estúdios que sobreviveram, incluindo o nosso, são os que se mantiveram enxutos. Tivemos demissões. Tivemos que reduzir horas. Cortamos onde foi necessário.” A taxa de queima (burn rate) se tornou a métrica mais importante da sobrevivência.
Comunidade e colaboração: o novo pilar da resiliência canadense
Se o financiamento governamental é um fator, a comunidade e a colaboração emergem como a verdadeira razão para a continuidade da indústria canadense. Carvalho observou que sua empresa, atuando como co-desenvolvedora, fechou mais contratos com estúdios canadenses nos últimos anos do que nos quatro anteriores. O sucesso de alguns está sendo redistribuído: a Black Tabby Games, por exemplo, após o estrondoso sucesso de Slay The Princess, entrou no mercado de publicação para apoiar outros desenvolvedores independentes. “Enquanto algumas equipes foram duramente atingidas, as que sobreviveram estão tentando apoiar as outras. Não é o ideal, mas está longe de ser tão catastrófico quanto o que vemos em partes dos EUAaaa”, disse Carvalho.
Essa visão colaborativa é compartilhada por Eileen Mary Holowka, que representava a Baby Ghosts, uma organização sem fins lucrativos dedicada a apoiar desenvolvedores cooperativos. “O modelo antigo de ‘construa um jogo, arrume uma publisher, escale infinitamente’ simplesmente não é mais confiável. Os estúdios gigantes estão mostrando os limites de seus próprios modelos”, afirmou. Holowka destacou que o CMF agora permite que cooperativas se candidatem a financiamento, um sinal encorajador para quem busca alternativas ao modelo tradicional. “Há poder na organização coletiva”, resumiu.
O que o Canadá ainda precisa para consolidar seu novo ecossistema
Embora a maioria dos participantes do XP Summit reconheça os avanços, a percepção geral é de que o país pode fazer mais. Carvalho foi direto: “A resposta fácil é sempre ‘mais dinheiro’. O Canadá tem talento; o que nos falta é uma melhor conectividade na indústria. Não deveríamos ter que sair do país para construir relacionamentos significativos.” Lepine concordou, apontando que “há uma oportunidade real de fortalecer a indústria domesticamente, colaborando mais entre nós aqui em casa.” Quanto aos famosos créditos fiscais, Kristian Roberts defendeu que eles “ainda têm um papel, mas não podemos depender deles como mecanismo principal de apoio para sempre.” Ele citou o sistema de créditos fiscais da Nova Zelândia como um modelo a ser observado. “Precisamos pensar no ecossistema total de forma mais coesa — não apenas financiamento, mas missões comerciais, suporte a startups, mentoria, educação e como preparar desenvolvedores para um mundo onde a autopublicação, o desenvolvimento de audiência e as pequenas equipes estão se tornando a norma.” A indústria canadense de games, portanto, não está apenas se recuperando: está se redefinindo, e o XP Game Summit deixou claro que essa nova identidade, embora mais austera, é também mais orgânica, resiliente e potencialmente mais sustentável a longo prazo. O desafio agora é fazer com que o ecossistema de apoio acompanhe essa transformação em vez de tentar recriar o passado.

