Os fundos multimercados, conhecidos por sua flexibilidade para investir em diferentes classes de ativos, enfrentaram um mês de março turbulento. Dados diários da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) revelam que, até o dia 10 do mês, nove das onze estratégias principais registravam rentabilidade média negativa. As perdas variaram de um modesto -0,02% nos fundos de Capital Protegido a uma queda mais expressiva de -1,56% na estratégia Long and Short Neutro. Este cenário contrasta com o desempenho positivo observado em grande parte do ano, levantando questões sobre os fatores por trás da reversão.
Análise do desempenho por estratégia de investimento
Os números divulgados pela Anbima oferecem um retrato detalhado do desempenho setorial. As estratégias de Juros e Moedas e os Balanceados foram as únicas a fechar o período no azul, com ganhos médios de 0,44% e 0,12%, respectivamente. Essas categorias, que frequentemente incluem exposição a renda fixa e crédito privado, encontraram um porto seguro na volatilidade. No extremo oposto, os multimercados Macro, tradicionalmente voltados a antecipar movimentos macroeconômicos em juros, câmbio e bolsa, sofreram uma perda média de 1,40%. A categoria de Investimento no Exterior, que detém o maior patrimônio do setor, aproximadamente R$ 740 bilhões, também amargou uma queda de 1,00% no mês.
Captação líquida positiva mascara resgates expressivos em setores-chave
Um dado paradoxal emerge da análise: apesar do desempenho predominantemente negativo, o setor de multimercados registrou uma captação líquida positiva de R$ 717 milhões em março. Esse fluxo foi puxado principalmente pelas estratégias de Investimento no Exterior e Estratégia Específica, que atraíram R$ 1,07 bilhão e R$ 382,1 milhões, respectivamente. No entanto, essa captação agregada esconde movimentos de saída significativos. As estratégias de Juros e Moedas e os fundos Livres, por exemplo, enfrentaram resgates líquidos de R$ 420,2 milhões e R$ 265,9 milhões, indicando uma realocação de capital por parte dos investidores ou uma fuga de setores específicos dentro da turbulência.
Posicionamento consensual e choques geopolíticos explicam as quedas
Para Bruno Maueler, Co-CIO e Diretor de Soluções de Investimentos da Azimut Brasil Wealth Management, a chave para entender o desempenho negativo está no posicionamento anterior dos gestores. “Acompanhando as últimas cartas de gestão e relatórios, a maioria dos gestores Macro, que tomam posições mais direcionais, estavam muito concentrados em posições pró-risco e com teses consensuais”, explica. Muitos estavam alinhados com a narrativa de diversificação de ativos americanos para mercados emergentes, um fluxo que impulsionou a bolsa brasileira no final do ano passado e no início deste. A mudança abrupta no sentimento do mercado, desencadeada por tensões geopolíticas, pegou esses fundos desprevenidos.
Apostas em commodities geram resultados opostos aos esperados
Outra fonte de prejuízo veio das apostas em commodities. Segundo Maueler, muitos gestores estavam posicionados para uma queda no preço do petróleo e foram surpreendidos pela forte alta do barril após o agravamento de conflitos internacionais. Paralelamente, aqueles que investiram em ouro como proteção contra uma possível desvalorização do dólar também viram a tese se inverter. “O metal acabou caindo depois do início do conflito, que voltou a fortalecer a moeda americana. Talvez a queda do ouro tenha sido efeito também de desalavancagem, o mercado havia comprado muito e teve de diminuir posições”, analisa o especialista. Esta convergência de fatores criou uma “tempestade perfeita”, resultando em perdas que, em alguns fundos, chegaram a 5% no mês.
Gestores adotam posturas distintas para navegar a crise
O caminho a seguir para os multimercados agora se bifurca, dependendo da filosofia de gestão de cada fundo. Maueler destaca duas abordagens principais. Alguns gestores, por regra interna ou metodologia, são obrigados a reduzir o risco após perdas significativas. “Param tudo para refletir sobre o cenário e montam uma posição menor”, explica. Nesse caso, se o mercado se recuperar rapidamente, esses fundos participam menos da alta, pois estão menos expostos. Outros gestores, que acreditam que a crise é temporária ou que não sofreram quedas tão severas, podem optar por manter suas posições. Para estes, uma desescalada gradual do conflito e uma normalização nos preços do petróleo podem permitir uma recuperação mais robusta.
Incerteza elevada e risco de cenário de estagnação com inflação
O cenário futuro, no entanto, permanece envolto em alta incerteza. Maueler alerta para um “risco de cauda” elevado, referindo-se à probabilidade de eventos extremos e pouco esperados. “Se a crise escalar, ela pode virar um choque mais duradouro de oferta de petróleo, com cenário de estagnação econômica com inflação alta e aí seria preciso mudar todo o portfólio”, afirma. Esta possibilidade de estagflação – crescimento econômico parado combinado com inflação alta – exigiria uma revisão profunda das estratégias de investimento, afastando-se das teses consensuais que predominavam até recentemente.
O papel dos multimercados na carteira do investidor atual
Diante dessa volatilidade, a pergunta que se impõe é sobre o papel estratégico dos multimercados. Para Maueler, o valor desses fundos reside justamente em sua capacidade de oferecer um diferencial. “O investidor precisa neste momento pensar nos multimercados como uma estratégia que agrega um diferencial em sua carteira, que traga um desempenho diferente das NTN-Bs, dos ativos isentos ou da bolsa”, defende. Em um ambiente de correlações imprevisíveis, ter uma parcela do patrimônio que se movimenta de forma não sincronizada com os principais índices de renda fixa ou variável pode ser uma ferramenta valiosa para diversificação e otimização de resultados no longo prazo.
A volatilidade de março serviu como um lembrete contundente de que nem mesmo as estratégias mais flexíveis estão imunes a choques macroeconômicos e geopolíticos. O desempenho divergente entre as categorias de multimercados, no entanto, reforça a importância da seleção criteriosa e da compreensão das teses por trás de cada fundo. Enquanto o cenário global permanece instável, a capacidade de adaptação dos gestores e a resiliência de suas estratégias serão postas à prova, definindo não apenas os resultados do trimestre, mas também a percepção de valor desses veículos para a construção de carteiras robustas.

