O Fim de El Mencho e o Início de um Novo Capítulo no Narcotráfico Mexicano

Operações conjuntas das forças de segurança federais do México resultaram na morte de Nemesio Oseguera Cervantes, conhecido como “El Mencho”, líder e fundador do Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG), em um confronto armado em uma propriedade rural no estado de Michoacán na última quarta-feira. A ação desencadeou uma série imediata de ataques de retaliação coordenados pelo cartel em várias cidades, incluindo bloqueios de estradas, incêndios criminosos e tiroteios, criando caos em partes de Jalisco e Guanajuato. A morte do narcotraficante mais procurado do país, com uma recompensa de 10 milhões de dólares oferecida pelo governo dos EUA, representa o golpe mais significativo contra o crime organizado mexicano em mais de uma década, mas também expôs a fragilidade da aparente vitória ao revelar a capacidade de reação violenta e automatizada de uma organização que há muito transcendeu seu fundador.

O Peso do Agora

A notícia da morte de El Mencho chegou às manchetes como um triunfo tático, um ponto final em uma caçada de anos. A superfície brilha com a narrativa de um mal eliminado: o Departamento de Estado Americano o considerava “um dos traficantes de drogas mais violentos do mundo”, responsável por toneladas de cocaína, metanfetamina e fentanilo que atravessam a fronteira norte, e por uma cadeia de atrocidades que inclui decapitações, dissoluções corporais em ácido e ataques a autoridades com armas de calibre militar. Sua captura ou morte era o objetivo declarado de duas administrações presidenciais mexicanas e uma obsessão da DEA. A operação que o encontrou em um rancho fortificado, após inteligência de longo prazo, parece o epítome do sucesso policial-militar.

Mas a fissura apareceu em questão de horas, antes mesmo que os discursos oficiais de vitória pudessem ser finalizados. A reação do CJNG não foi de desespero ou dissolução, mas de demonstração de força coreografada. Em Guadalajara, Cidade do México e municípios menores, células do cartel ativaram protocolos pré-estabelecidos. Caminhões e carros roubados foram incendiados para bloquear vias principais; grupos armados patrulharam bairros; e o pânico se instalou no Aeroporto Internacional de Guadalajara, quando relatos de tiros próximos—posteriormente atribuídos a confrontos entre gangues rivais—fizeram passageiros se jogarem no chão. A mensagem era clara e destinada a um público duplo: para o Estado, era um aviso sobre o custo da vitória; para os mercados criminosos e cartéis rivais, era uma afirmação de que a máquina continuava funcionando. A falha revelada não está na operação que matou Mencho, mas na suposição subjacente de que sua eliminação seria um ponto de virada decisivo. O problema nunca foi apenas o homem; era o sistema—a corporação híbrida de violência, corrupção e logística—que ele ajudou a arquitetar. A morte expõe que, após anos de consolidação, o CJNG opera com uma resiliência burocrática e uma descentralização que o tornam, em muitos aspectos, à prova de decapitação.

A Arquitetura de um Império e o Vácuo de Poder

Para entender o que vem depois, é necessário dissecar a estrutura que El Mencho deixou para trás. O CJNG não era uma organização piramidal clássica, com um único chefe no topo. Sob a liderança de Mencho, evoluiu para uma rede federada de células, ou “plazas”, cada uma com considerável autonomia operacional. Estas células são responsáveis por atividades específicas: tráfico internacional, produção de drogas sintéticas em laboratórios clandestinos, controle territorial através de grupos paramilitares como o “Grupo Élite”, lavagem de dinheiro através de negócios legítimos como aguacate e mineração, e a infame divisão cibernética, “Los Toritos”, especializada em espionagem e ataques a comunicadores. Mencho era o CEO visionário e o símbolo unificador, mas a empresa tinha uma diretoria executiva.

Os Herdeiros em Disputa

A linha de sucessão imediata aponta para figuras já estabelecidas no comando, mas nenhuma com a mesma combinação de autoridade carismática e tática brutal. Os nomes mais citados são:

El 03 (Juan Carlos “El 03” González): Irmão mais velho de Mencho, historicamente uma figura financeira e logística chave, envolvido na expansão para a Europa e na lavagem de ativos. Sua liderança representaria continuidade, mas sua idade avançada e perfil mais discreto podem ser vistos como uma fraqueza em um ambiente que valoriza a demonstração pública de força.

El Menchito (Ruben Oseguera González): Filho de Mencho, preso nos EUA desde 2020 e aguardando julgamento. Sua influência é mais simbólica e limitada pela prisão, mas seu nome carrega o peso da linhagem. Células leais à família podem se agrupar em torno de sua figura, mesmo à distância.

El Doble R (Ricardo Ruiz Velasco): Considerado o braço direito operacional e supostamente o chefe dos grupos armados do cartel. Um “halcón” (falcão) de alto escalão com controle direto sobre a violência. Sua ascensão significaria uma guinada ainda mais militarizada e agressiva do cartel.

A disputa interna não será necessariamente uma guerra aberta imediata. Pode se manifestar primeiro como uma fragmentação silenciosa: células regionais buscando maior independência, alianças locais sendo renegociadas e uma competição pelos fluxos de renda mais lucrativos, particularmente o tráfico de fentanilo para os EUA.

A Reconfiguração do Tabuleiro Geográfico

O CJNG, sob Mencho, travou uma guerra de expansão multifrontal. Seu conflito com o Cartel de Sinaloa pelo corredor do Pacífico é lendário. Agora, com a liderança em questão, os cartéis rivais sentirão o cheiro de oportunidade. O Cartel de Sinaloa, ainda se reestruturando após a captura de Ovidio Guzmán, pode tentar retomar territórios perdidos em estados como Colima, Nayarit e Baja California. No leste, os remanescentes dos Cartéis do Golfo e dos Zetas, assim como o emergente Cartel do Nordeste, podem intensificar pressões em Veracruz e Tamaulipas. O vácuo de autoridade central no CJNG pode reacender conflitos regionais adormecidos, levando a um aumento de curto prazo na violência em cidades fronteiriças e rotas de contrabando.

O Efeito Ondulatório

O silêncio após a onda inicial de ataques é enganoso. Nos próximos 30 dias, os observadores devem monitorar três indicadores críticos: a natureza das comunicações públicas do cartel (se houver um novo “canto” ou mensagem unificada), a estabilidade ou tumulto nas praças de tráfico chave como Puerto Vallarta e Toluca, e qualquer movimento incomum de grupos armados entre municípios. Se a transição interna for relativamente ordenada, a violência pode se estabilizar em um novo patamar, focado na defesa territorial. Se for caótica, o México poderá testemunhar uma fase de conflitos intestinos dentro do CJNG, semelhante às guerras entre facções que fragmentaram o Cartel de Beltrán Leyva após a morte de Arturo Beltrán.

O impacto mais profundo, no entanto, pode não ser no submundo, mas no mundo legal. A morte de El Mencho remove o principal alvo simbólico da “guerra contra as drogas” mexicana. Isso força uma reavaliação pública e política de uma estratégia que, por 18 anos, focou persistentemente na captura ou eliminação de “líderes de cartel”—de Osiel Cárdenas a Joaquín “El Chapo” Guzmán—sem que o fluxo de drogas, a violência ou o poder corruptor das organizações diminuísse significativamente. A pergunta que se impõe, e que formuladores de políticas terão de enfrentar nos próximos meses, não é mais “quem é o próximo na lista”, mas “o que vem depois da lista”. A atenção pode, finalmente, se voltar para as condições que permitem a existência destas organizações: a corrupção institucionalizada, a economia informal massiva, a demanda insaciável por drogas no norte e a falta de alternativas viáveis para milhares de recrutas. A morte de um homem, por mais notória que seja, não responde a essas questões. Ela apenas as deixa, mais uma vez, expostas à luz do dia, aguardando uma resposta que vá além da próxima operação militar.

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