ESRB não adota mudanças de classificação da PEGI nos EUA para evitar confusão

A recente decisão do Entertainment Software Rating Board (ESRB), o órgão de classificação de jogos norte-americano, de não adotar as mudanças anunciadas pelo equivalente europeu PEGI, aponta para uma divergência fundamental na abordagem da regulamentação de conteúdo digital. Enquanto a Pan-European Game Information (PEGI) passa a incluir elementos relacionados ao contexto, como micromotransações pagas e comunicação online descontrolada, no cálculo de sua idade recomendada, o ESRB mantém sua política de basear-se apenas no conteúdo explícito do produto, alegando que a mudança poderia confundir pais e consumidores. Esta polêmica abre uma discussão crucial sobre o papel das entidades de classificação em um mercado global, a pressão regulatória crescente sobre a indústria de jogos e como informar adequadamente os usuários sobre os riscos além da violência ou linguagem.

O que mudou no sistema PEGI e por que é significativo

Em junho, o sistema Pan-European Game Information (PEGI) implementará mudanças substanciais em seu sistema de classificação por idade. As novas regras, inspiradas em alterações anteriores da USK alemã, elevam a idade recomendada para jogos que contenham elementos como paid random items (itens aleatórios pagos, popularmente conhecidos como loot boxes), ofertas com limite de tempo ou quantidade, funcionalidades de “play-by-appointment” e comunicação online sem restrições. O diretor geral do PEGI, Dirk Bosmans, afirmou que o objetivo é manter os pais “o mais informados possível sobre a experiência de seus filhos com videogames”, integrando tanto o conteúdo quanto o contexto na decisão final da classificação.

O alinhamento com a USK e a pressão regulatória

A mudança do PEGI não é isolada. Ela reflete um alinhamento estratégico com a Unterhaltungssoftware Selbstkontrolle (USK) alemã, que em 2023 atualizou seus critérios para cumprir a Lei de Proteção aos Jovens. Bosmans destacou que as duas organizações trabalharam juntas para “realinhar” seus sistemas, visando maior consistência e resposta às preocupações públicas e legislativas. Ele também lembrou que a indústria deve “ler o momento”, reconhecer a crescente pressão regulatória e assumir suas responsabilidades. Isso indica um movimento europeu coordenado para ampliar o escopo das avaliações, tratando mecanismos comerciais e interações sociais como fatores de risco dignos de alerta.

A posição do ESRB e a filosofia de classificação baseada em conteúdo

Em contraste claro, o ESRB declarou que não há planos para permitir que “qualquer fator fora do conteúdo e contexto do jogo influencie a atribuição da idade recomendada”. Em comunicação com *The Game Business*, um porta-voz da organização norte-americana justificou a decisão baseando-se em pesquisas que indicam que os pais querem ser avisados préviamente sobre funcionalidades como comunicação online e capacidade de gastar dinheiro real em compras dentro do jogo, mas que seria confuso se características não relacionadas ao conteúdo influenciassem a categoria da classificação. Para o ESRB, o sistema deve ser puramente sobre “o conteúdo de um jogo e o contexto em que é apresentado ao jogador”, mantendo uma linha clara entre o que é considerado “conteúdo” (violência, sexualidade, linguagem) e o que é “contexto” (modelos de negócio, interação social).

A busca por informação sem confusão

O argumento central do ESRB gira em torno da clareza informativa. A organização teme que a integração de fatores como loot boxes ao símbolo de idade (por exemplo, tornar um jogo “PEGI 16” devido a ele) possa diluir a mensagem sobre o conteúdo tradicionalmente considerado perigoso. Em vez disso, o ESRB mantém e aprimora seus ícones e descritores separados, como “Compras In-Game” e “Interação Online de Usuários”, que aparecem ao lado da classificação de idade. Essa abordagem pretende dar “notificação antecipada” sobre essas características sem misturar os critérios de avaliação. Bosmans, do PEGI, reconheceu o mérito dessa preocupação, admitindo que “integrar ambos [conteúdo e contexto] em uma classificação de idade” pode levar à perda de alguns níveis de detalhamento.

O desafio dos jogos legados e atualizações contínuas

Um ponto prático crucial mencionado por ambas as organizações é o desafio dos jogos legados. As novas regras do PEGI aplicam-se apenas aos jogos submetidos para classificação a partir de junho. Dirk Bosmans, however, admitted that addressing existing titles is a complex task. “We cannot continuously check our back catalogue,” he said, noting that many games são constantemente atualizados. O PEGI monitorou a presença de compras dentro do jogo e paid random items nos últimos sete anos e planeja “fazer algumas escolhas realmente inteligentes” para desenvolver um “plan of attack” para revisar produtos legados sob os novos critérios. Essa questão ilustra a dificuldade operacional de aplicar mudanças de política a um ecossistema digital dinâmico e vasto.

O papel das atualizações e DLCs

A prática comum de lançar expansions, DLCs e atualizações de conteúdo que podem introduzir novos mecanismos de monetização ou interação coloca um problema adicional. Um jogo inicialmente classificado sem loot boxes pode, após uma atualização, incorporar esse elemento. Sistemas como o ESRB e o PEGI têm processos para reclassificação, mas a escala do fenômeno torna a revisão contínua uma tarefa hercúlea. Isso reforça o argumento de alguns analistas pela necessidade de sistemas mais dinâmicos ou de alertas em tempo real, além da classificação estática inicial.

A divergência em um mercado global de jogos

A discrepância entre as abordagens do ESRB e do PEGI cria uma situação potencialmente complexa para desenvolvedores e publishers que operam globalmente. Um mesmo jogo pode receber uma classificação PEGI 16 na Europa devido à presença de loot boxes, enquanto nos Estados Unidos recebe uma classificação ESRB baseada apenas em seu conteúdo visual/auditivo, possivelmente menor, mantendo o ícone de “Compras In-Game” como informação complementar. Essa inconsistência pode, de fato, gerar confusão para pais que consultam diferentes sistemas ou para plataformas de distribuição que precisam apresentar informações claras. Bosmans comentou que “é totalmente apreciável que o ESRB possa tomar uma posição diferente”, reconhecendo a legitimidade de caminhos distintos em diferentes regiões culturais e regulatórias.

Cultura, regulação e percepção pública

A decisão de cada organização reflete não apenas sua filosofia operacional, mas também o ambiente cultural e regulatório de sua região. A Europa, com uma tradição de proteção consumerista mais forte e recentes leis como a Youth Protection Act alemã, parece inclinar-se para uma abordagem mais intervencionista e integrada. Os Estados Unidos, com um mercado historicamente mais centrado na liberdade comercial e uma ênfase na responsabilidade parental individual, tendem a preferir sistemas que informam sem diretamente restringir através da classificação. A pressão de legisladores, grupos de defesa do consumidor e da própria indústria molda essas respostas distintas.

O futuro das classificações e a informação do consumidor

O debate levantado por esta divergência aponta para o futuro das classificações de idade em meios digitais. À medida que os jogos se tornam mais complexos, incorporando economias virtuais, interações sociais intensas e modelos de negócio diversificados, a simples avaliação de conteúdo audiovisual pode ser considerada insuficiente por parte da sociedade. A questão central é: qual é o método mais eficaz para equipar os consumidores, especialmente os pais, com a informação necessária para tomar decisões conscientes? Integrar tudo em um único número (a idade recomendada) ou fornecer uma combinação de classificação principal e etiquetas descritivas separadas?

Não há uma resposta fácil, e ambas as organizações apresentam argumentos válidos. O caminho do PEGI busca simplicidade e impacto, elevando a visibilidade de questões como monetização agressiva ao nível do ícone principal. O caminho do ESRB busca precisão e separação, evitando que um alerta sobre gastos seja interpretado como um alerta sobre violência gráfica. O resultado final deste período de experimentação e ajuste regulatório será crucial para definir como a indústria global de jogos se comunica com seu público sobre os riscos multifacetados dos produtos contemporâneos, equilibrando a responsabilidade corporativa, a proteção do usuário e a clareza da informação.

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