Em 9 de abril de 1976, chegava aos cinemas All the President’s Men, uma obra-prima do cinema político que narrava, com uma urgência pulsante, o trabalho dos jornalistas do The Washington Post, Bob Woodward e Carl Bernstein, para desvendar o escândalo de Watergate, que culminou na renúncia do presidente Richard Nixon. Cinquenta anos depois, o filme continua sendo um estudo impecável de direção, roteiro e atuação – uma aula de jornalismo investigativo e um thriller com ritmo de detetive. No entanto, ao adentrarmos a terceira década do século XXI, especificamente no contexto dos mandatos do presidente Donald Trump, a mensagem central do filme e sua lógica de funcionamento parecem pertencer a uma era arqueológica. All the President’s Men transformou-se em um símbolo poderoso, mas também em um lembrete melancólico de um pacto social e institucional que parece ter se desintegrado.
O Mecanismo Impecável de um Mundo que Parou de Funcionar
O poder de All the President’s Men reside justamente em sua frieza procedural. O diretor Alan J. Pakula e o roteirista William Goldman optaram por retratar não o espetáculo político, mas o trabalho minucioso e muitas vezes monótono do jornalismo de apuração. A câmera segue Woodward (Robert Redford) e Bernstein (Dustin Hoffman) em intermináveis ligações telefônicas, visitas a portas fechadas e horas debruçados sobre pilhas de papéis na redação barulhenta do Post. O som dos teclados das máquinas de escrever é a trilha sonora de uma investigação que avança linha por linha.
A Lógica da Investigação: “Follow the Money”
A icônica frase dita pela fonte anônima “Garganta Profunda” (Hal Holbrook) – “Follow the money” – tornou-se um princípio universal da investigação. No universo do filme, e do caso Watergate, essa lógica funcionou. O dinheiro dos caixas de campanha levou aos ladrões, que levaram ao comitê de reeleição, que levou até o coração do poder na Casa Branca. Havia uma cadeia de causalidade lógica, uma série de elos que, uma vez descobertos, conectavam a ação criminosa à responsabilidade final. A imprensa, representada pelo Post, atuou como o mecanismo de verificação e exposição desse fato. O sistema político-partidário, por sua vez, quando confrontado com as evidências irrefutáveis, moveu-se: republicanos seniores avisaram Nixon que seu apoio no Congresso havia evaporado, forçando sua renúncia.
Elementos de um Funcionamento Bem-Sucedido
- A Fonte Anônima Protegida: Garganta Profunda operava na sombra porque havia um risco real. O sigilo era uma condição para a verdade vir à tona.
- A Autoridade da Imprensa Estabelecida: O Washington Post, mesmo sob pressão e ameaças, era uma instituição cuja credibilidade podia impactar a opinião pública.
- O Peso das Evidências Fácticas: Fatos verificáveis, documentos, testemunhos – esse era o terreno da disputa.
- Um Piso Ético Mínimo no Sistema Político: A premissa (hoje talvez ingênua) de que certas linhas, uma vez cruzadas e provadas, eram insustentáveis para um líder.
O Colapso do “Contrato de Watergate”: A Era das Consequências Nulas
A transposição da lógica de All the President’s Men para a era Trump não falha apenas por diferença de escala; ela falha por uma incompatibilidade total de sistemas operacionais. As regras que guiavam Woodward e Bernstein foram deletadas do sistema político moderno, tornando o filme um manual para um software que não roda mais.
O Dinheiro Seguido (e Ignorado)
Em 1972, seguir o dinheiro que pagou os ladrões de Watergate era um trabalho detectivesco complexo. Na presidência de Donald Trump, “seguir o dinheiro” é um exercício de leitura de manchetes da Forbes. Empresas estrangeiras canalizaram bilhões para a organização Trump durante e entre seus mandatos. Presentes exorbitantes de governos estrangeiros foram recebidos abertamente. O enriquecimento pessoal direto do presidente e de sua família a partir da posição é um fato documentado e flagrante. No entanto, a conexão causal – dinheiro ilícito = responsabilidade política = consequência – foi quebrada. As evidências não desencadearam um mecanismo de responsabilização, mas foram absorvidas por uma narrativa política de perseguição.
A Inversão do Papel da Fonte e da Imprensa
Em contraste com um único Garganta Profunda agindo nas sombras, a era Trump foi marcada por uma sucessão de “whistleblowers” de alto nível agindo à luz do dia. O ex-diretor do FBI, James Comey, testemunhou publicamente sobre obstrução de justiça. A ex-conselheira de Segurança Nacional, Fiona Hill, alertou sobre chantagem à Ucrânia. O general Mark Milley, ex-chefe do Estado-Maior, descreveu o presidente como um perigo à democracia. Não era um homem na garagem, mas os próprios líderes da burocracia de segurança nacional soando o alarme. O resultado não foi uma renúncia forçada, mas a consolidação de uma base política que vê essas figuras como parte de um “Estado Profundo” traidor. A imprensa, por sua vez, foi sistematicamente descredibilizada como “inimiga do povo”. Grandes veículos, como o próprio Washington Post, passaram por profundas transformações sob propriedades alinhadas ao poder, perdendo parte de sua autonomia agressiva.
A Banheira Transbordante de Escândalos
A genialidade narrativa de Pakula foi condensar um processo de dois anos em um thriller de 138 minutos. Hoje, a narrativa política se assemelha menos a um thriller de espionagem e mais a um “bullet hell” interminável, onde o espectador é bombardeadopor novos escândalos antes de conseguir processar os anteriores.
- Interferência Estrangeira (2016): Investigação detalhada sobre conluio com a Rússia.
- Chantagem à Ucrânia (2019): Impeachment por tentar coagir um aliado para obter vantagem eleitoral.
- Tentativa de Subversão Eleitoral (2020-2021): Pressão sobre funcionários estaduais (“ache 11.780 votos”) e incitação ao ataque ao Capitólio em 6 de janeiro.
- Acúmulo de Acusações Criminais: Dezenas de processos federais e estaduais cobrindo manuseio de documentos confidenciais, fraude empresarial e conspiração para reverter eleições.
Cada um desses capítulos, individualmente, seria um Watergate com potencial para derrubar uma presidência. Em conjunto, e sem uma consequência política definitiva, eles criam um fenômeno de fadiga e cinismo. A redundância do escândalo anestesia seu impacto.
Da Responsabilidade à Tribo: A Fragmentação do Consenso
O momento crucial que levou Nixon a renunciar não foi a capa do Washington Post, mas a decisão de líderes republicanos, como o senador Barry Goldwater, de retirar seu apoio. Existia, ainda que frágil, um acordo supra-partidário sobre os limites da conduta presidencial. A renúncia foi um ato institucional para preservar o sistema.
Hoje, o mecanismo é o inverso. O partido político, transformado em movimento de identidade tribal, não atua como freio, mas como blindagem. As acusações não são avaliadas por seu mérito factual, mas por sua origem (“é uma armação da esquerda”) e por seu custo tribal. Defender o líder, independentemente dos atos, tornou-se um sinal de lealdade política. Essa dinâmica inviabiliza totalmente o clímax de All the President’s Men. Não há senadores republicanos suficientes a caminho da Casa Branca para pedir a renúncia; há, isso sim, uma base consolidada que interpreta qualquer tentativa de responsabilização como um ataque ilegítimo.
O Fim da Verdade como Critério
O filme de Pakula é uma ode à verdade factual. A tensão da redação é: “Podemos provar? Temos uma segunda fonte?”. A era Trump operacionalizou a pós-verdade. A neblina de milhares de declarações falsas, teorias da conspiração e narrativas alternativas cria um ambiente onde os fatos objetivos perdem seu poder de coagir. Para que serve um furo jornalístico bombástico se ele pode ser descartado como “fake news” para um segmento colossal da população? A arma final contra o jornalismo investigativo não foi a ameaça legal (como no filme), mas a criação de um ecossistema midiático paralelo que nega sua premissa básica.
Por Que “All the President’s Men” Ainda Importa (Mas de Outra Maneira)
Dizer que o filme se tornou irrelevantepolíticamente não significa que ele perdeu seu valor. Muito pelo contrário. Sua relevância mudou de “manual de operações” para “peça de museu” e “espelho crítico”.
Como Documento Histórico de um Modus Operandi
Assistir ao filme hoje é como estudar um manuscrito medieval que descreve um processo judicial perdido. Vemos como a imprensa funcionava com tempo, recursos e autoridade social. Vemos como fontes eram cultivadas com paciência. Vemos a crença, talvez ingênua, no poder reparador da verdade exposta. É um registro valiosíssimo de um ethos jornalístico e de um equilíbrio de poderes que definiu parte do século XX.
Como Farol Ético (e Sua Nostalgia Dolorosa)
A integridade obsessiva de Ben Bradlee (Jason Robards), a coragem cautelosa de Woodward e Bernstein, a seriedade burocrática dos editores – tudo isso brilha no filme com uma luz que hoje parece quase quixotesca. O filme nos mostra um caminho que a sociedade americana, e em certa medida a ocidental, decidiu não seguir. Essa nostalgia não é por um passado idealizado (a política sempre foi suja), mas por um conjunto de freios, contrapesos e códigos de conduta que foram ativamente desmontados.
Como Antídoto Contra o Cinismo
Em um momento em que o trabalho jornalístico é constantemente vilipendiado, All the President’s Men oferece uma defesa eloquente e não verbalizada de seu propósito mais nobre: servir de cão de guarda do poder, em benefício do público. Ele lembra que o jornalismo, em seu melhor, não é sobre espetáculo ou entretenimento, mas sobre o paciente e corajoso ato de descobrir e contar a verdade, não importa onde ela leve.
Portanto, ao celebrar seus 50 anos, All the President’s Men precisa ser relido. Não como um guia para o presente, mas como um testemunho de um paradigma encerrado. Ele capturou com perfeição técnica o funcionamento de um mundo onde as regras ainda importavam, a verdade ainda era um conceito operacional e as ações tinham consequências previsíveis. Ao fazê-lo, o filme nos fornece a medida exata da distância que percorremos – e nos faz uma pergunta incômoda e necessária. Se os mecanismos de responsabilização tão meticulosamente retratados por Alan J. Pakula já não funcionam, qual novo sistema, se é que algum pode emergir, tomará seu lugar para proteger as democracias de seus piores instintos? A resposta a essa pergunta ainda está sendo escrita, mas não nas telas ou nas manchetes de jornal da forma que Woodward e Bernstein reconheceriam.
