Antes da explosão dos podcasts e streams de RPG, a porta de entrada para o hobby era bem diferente. Os livros de regras traziam aqueles “exemplos de jogo” com personagens de nomes genéricos como Arthur e Samantha, encenando diálogos roteirizados e um combate meio sem graça. Para quem, como eu, cresceu em uma cidade do interior sem lojas especializadas, era a única referência disponível. Hoje, é fácil: existem centenas de episódios de Critical Role na internet, além de Dimension 20, The Adventure Zone, Acquisitions Incorporated e até mesas profissionais com Neil Newbon e Devora Wilde, de Baldur’s Gate 3. Eu teria matado por ter tanto material de referência quando era criança. Agora, tenho mais horas de Matt Mercer perguntando “How do you want to do this?” do que jamais conseguirei assistir.
Por isso é tão desconcertante que, há anos, o algoritmo do YouTube e o Reddit vomitem manchetes como “Como vencer o efeito Matt Mercer” e “O efeito Mercer é real e pode ser extremamente tóxico para sua mesa”. A ideia central do chamado “Efeito Matt Mercer” é que séries de actual play como Critical Role seriam uma introdução ruim ao RPG, criando expectativas perigosamente altas em novos jogadores — e, supostamente, arruinando as mesas iniciantes. A alegação é que uma geração de jogadores acredita que todo mestre será tão bom em sotaques e rangidos de porta quanto o dublador profissional Matthew Mercer, e que esses jogadores vão abandonar sua mesa frustrados porque você é apenas um mestre humano comum, que no máximo consegue fazer um goblin cockney meia-boca.
O problema não começou com Matt Mercer
Não estou dizendo que ninguém nunca reclamou que seu mestre não está fazendo um bom trabalho, e talvez até tenha usado Matt Mercer como exemplo do que esperar. Estou dizendo que o problema é muito anterior ao Critical Role, e já acontecia anos antes de alguém ganhar a vida como mestre profissional. Basta lembrar dos próprios fóruns de RPG do início dos anos 2000: o tópico “Creepiest Person You Ever Gamed With” no RPGNet eventualmente alcançou 3.000 posts e foi dividido em seis subthreads separados — só para dar uma ideia de quantas experiências ruins existiam.
Mas quem diz “você não é tão bom mestre quanto Matt Mercer” provavelmente não está agindo porque seu primeiro mestre era um completo esquisito. Essa reclamação surge de um problema ainda mais comum, embora menos divertido de relatar online: um simples desencontro de expectativas.
Expectativas vs. realidade: um conflito que vem de décadas
Esse choque entre expectativa e realidade é inevitável, independentemente de as expectativas virem de assistir a um actual play ou simplesmente de imaginar como seria jogar. Pessoas que queriam mais interpretação e descobrem que a mesa é só mais um dungeon crawl — isso não é fenômeno novo. A decepção na primeira experiência com RPG é uma reação comum há décadas. Foi a minha reação também, e tudo que eu tinha para alimentar minhas expectativas eram anúncios em revistas em quadrinhos prometendo “a aventura fantástica da sua vida” e as aventuras do Arthur e da Samantha. O coitado do Matt Mercer não tinha nada a ver com isso.
O que é o Efeito Matt Mercer (e por que ele não existe)
Em essência, o “Efeito Matt Mercer” é um conceito que sugere que jogadores iniciantes, ao assistirem a mestres profissionais como Matt Mercer, desenvolvem expectativas irreais para suas próprias mesas. A verdade, porém, é que a frustração por um mestre não atingir o padrão idealizado é anterior ao Critical Role. Ela existia nos tempos dos fóruns, dos exemplos de jogo nos livros e dos anúncios exagerados. A decepção não nasceu com os streams; ela sempre fez parte da cultura do RPG de mesa quando expectativas não são alinhadas.
O problema real não é Matt Mercer. É a falta de uma ferramenta chamada sessão zero.
A sessão zero como antídoto para expectativas quebradas
Uma das ferramentas mais importantes no arsenal de um mestre é a sessão zero. É aquela parte antes do jogo em que você garante que todos estão na mesma página sobre o tipo de experiência que vão ter. É ali que se discute se a mesa terá mais ação ou mais interpretação, se conflitos entre jogadores são permitidos, quais regras caseiras serão usadas, e por aí vai. Você está disposto a um jogo adversarial? Aceita romance entre personagens? Vai usar ferramentas de segurança? Vai ficar irritado porque eu sou neurodivergente e, às vezes, olhar para o celular me ajuda a concentrar, mesmo que pareça que estou distraído? São essas questões que se resolvem na sessão zero para não surgirem durante o jogo.
Mas a mesa que acontece no fundo de uma loja de jogos provavelmente não tem tempo para isso. E a mesa dirigida pelo irmão do seu amigo, que deixou você entrar só porque os pais obrigaram, também não. Grande parte dos rantings sobre o Efeito Mercer termina com a revelação de que a pessoa que estava mestrando era para um grupo que incluía estranhos — geralmente em uma loja local — sem nenhuma sessão zero. E, por mais que seja legal existirem sessões introdutórias improvisadas para quem tem curiosidade, quase sempre são uma experiência terrível de primeiro contato.
O RPG é melhor com amigos e alinhamento de expectativas
RPG de mesa funciona melhor quando você entra com calma, entre amigos. É um exercício de confiança: você precisa se sentir confortável passando algumas horas fingindo ser um gnomo na frente de pessoas que não vão tirar sarro de você por isso, com um mestre que não vai achar divertido fazer seu personagem lutar contra um abuso sexual, sofrer uma gravidez mágica ou qualquer um dos muitos cenários de pesadelo que povoam os tópicos do RPGNet.
Não importa se as expectativas vieram de Critical Role ou apenas de anúncios de revistas: o desencontro entre o que se imagina e o que se encontra é o verdadeiro vilão. Matt Mercer é apenas um bode expiatório conveniente para um problema que existe desde que os primeiros jogadores sentaram à mesa esperando uma aventura épica e encontraram um dungeon crawl qualquer. A decepção não nasceu com ele — e não vai morrer quando ele parar de mestrar.
