Há exatos dez anos, Nagata Kabi publicava um mangá que se tornaria um marco na literatura autobiográfica sobre saúde mental e sexualidade: My Lesbian Experience with Loneliness. A obra, que recebeu o Harvey Award, figurou em listas de recomendação e conquistou o prêmio de Melhor Mangá do Ano do Crunchyroll em 2017, também acumulou elogios da comunidade LGBTQIA+. Em um mundo perfeito, isso bastaria para atrair uma variedade de leitores, mas não vivemos nele. Seja por convicções religiosas ou pessoais, muitos ainda rejeitam um título visto como pró-LGBT. Nesse caso, trata-se de um desserviço intelectual e emocional.
O que é My Lesbian Experience with Loneliness? Uma sinopse além do óbvio
Diferente de mangás que apostam em aventuras idealizadas, My Lesbian Experience with Loneliness é um relato incômodo e introspectivo. A história acompanha Nagata Kabi, uma jovem de 28 anos com depressão e outros problemas de saúde mental. Ao longo das páginas, vemos como suas dificuldades se acumulam — levando-a a abandonar a universidade e, mais tarde, a perder o emprego. Esses eventos alimentam um ciclo vicioso: transtorno alimentar, negligência com a higiene pessoal e automutilação. O mais angustiante é que Nagata tem plena consciência do que está acontecendo, mas, como tantos outros, não consegue interromper a espiral autodestrutiva. Ela anseia por validação, afeto e amor, mas constantemente se sabota. Em sua mente, apenas a versão perfeita do que esperam dela seria digna de felicidade.
Felizmente, Nagata consegue encontrar uma carreira que se adapta à sua condição. E, assim que começa a caminhar, decide correr. Acreditando erroneamente que ainda não pode receber a aceitação que deseja, ela contrata uma acompanhante. Se conseguir fazer sexo, raciocina, poderá ter uma conversa normal. Na teoria, é simples. Na prática, muito menos.
O contexto japonês como personagem silenciosa
Vivemos na era das redes sociais, mas a solidão nunca foi tão palpável. Talvez sempre tenhamos sido solitários e só agora estamos admitindo isso. O Japão é um dos países mais rígidos em relação às expectativas sociais: espera-se que você tenha uma carreira estável e atinja marcos preestabelecidos no tempo certo. Essa pressão agrava os problemas de Nagata. Diferente do Ocidente, onde “fazer o próprio caminho” ganha mais aceitação, no Japão a conformidade ainda é a regra. A aceitação, afinal, está atrelada à adesão. O que acontece quando você deseja ser aceito por pessoas que discordam de aspectos inegociáveis da sua vida?
My Lesbian Experience with Loneliness nunca revela a raiz dos distúrbios de Nagata, mas expõe o que os alimenta: a busca por aprovação parental e social. Em várias passagens, a autora tenta conquistar o reconhecimento dos pais, mas, por não se encaixar nas expectativas deles, essa validação nunca chega.
A dolorosa descoberta da autoaceitação
“Era o desconforto de aceitar a mim mesma enquanto os outros não aceitavam.” Em algum momento, Nagata percebe uma verdade amarga: a paz interior geralmente exige decepcionar os outros. Para alguém que vive em busca de validação, essa é uma constatação aterrorizante. Quando se adicionam isolamento severo, depressão e baixa autoestima, o progresso para. Mas, como qualquer pessoa que já saiu desse buraco sabe, chega um ponto em que você entende que, se não se aceitar, ninguém mais o fará. A obra de Nagata ilumina essa virada com clareza cirúrgica.
No entanto, o mangá também mostra que aceitação exige manutenção física. É ingênuo acreditar que a aparência e a apresentação pessoal não importam. Todos julgam pela primeira impressão. Higiene adequada, peso saudável e roupas limpas são fundamentais. Ver Nagata perceber que precisa cuidar da própria aparência é catártico — um passo concreto em meio ao caos emocional.
Sexo, solidão e uma mente fragmentada
“Na busca por conforto, algumas pessoas acabam se machucando ao se agarrar a relações sexuais ruins.” Nagata Kabi aborda o sexo com humor e realismo. Uma amiga que leu a obra achou estranho que alguém tão socialmente inepto pudesse pagar por uma acompanhante. Quem já enfrentou depressão grave reconhece a lógica: para uma pessoa naquela situação, um relacionamento real parece impossível; pagar por uma experiência parece viável. Mas essa compra não inclui intimidade, gratificação ou conforto. Nagata aprende isso da maneira mais dura.
A inexperiência sexual da protagonista é retratada com comicidade — uma otaku que usa yaoi e doujinshi como referência arranca risos. Mas a realidade bate: existe uma mulher adulta que sabia tão pouco sobre sexo que recorria a doujins como fonte. É um nível de problemático difícil de digerir. Isso sem mencionar como problemas de saúde mental complicam a vida sexual.
O verdadeiro problema não é a ficção
“O problema não é o conteúdo da ficção, mas o fato de nunca recebermos as informações corretas.” A alfabetização sexual está morta. Escolas e governos restringem material sexual em nome da ordem pública, mas essa abordagem geralmente produz o efeito oposto: exposição a conteúdo prejudicial. O livro cita a asfixia erótica como exemplo. Antes uma prática de nicho, hoje é comum o suficiente para que países como o Reino Unido movam-se para proibir sua representação na mídia adulta. A lógica é que jovens imitam o que veem. E embora essa imitação seja problemática, proibições são políticas públicas ineficazes: ótimas no papel, raramente trazem resultados reais.
My Lesbian Experience with Loneliness é contundente sobre isso: quando alguém não tem informação correta, usa o que está disponível. E o disponível geralmente oscila entre inútil e prejudicial. Se queremos uma sociedade mais segura, precisamos abandonar a conversa superficial sobre “abelhas e flores” e começar a falar sério sobre educação sexual.
Por que My Lesbian Experience with Loneliness funciona para qualquer leitor?
Como homem cis hétero, algumas experiências me escapam. Posso simpatizar com as lutas de amigas e amigos gays, mas não consigo empatizar plenamente. Apesar disso — ou por causa disso — o mangá rompe essa barreira. Não enxerguei Nagata como uma lésbica com problemas de saúde mental; vi uma pessoa lutando contra eles. Isso é inestimável. Uma experiência que deveria ser estranha a mim de repente fez todo o sentido, e doeu.
Embora a obra centralize a saúde mental e a descoberta sexual de uma lésbica, sua história é universal. Solidão e transtornos mentais não escolhem a quem amamos. São igualadores implacáveis. Troque a protagonista por uma pessoa heterossexual ou gay, e a pungência permaneceria.
Arte e produção: a força do minimalismo
Um mangá vive de sua arte, e certas histórias exigem um estilo específico. My Lesbian Experience with Loneliness sofreria com traços excessivamente polidos. Os esboços de Nagata Kabi e o uso limitado de cores funcionam perfeitamente. O formato 4-koma permite que o leitor mergulhe nos pensamentos desorientadores da autora. Apesar da simplicidade visual, a emoção é avassaladora.
Não leio japonês, portanto não posso avaliar a fidelidade da tradução de Jocelyne Allen. Mas a versão em inglês transmite tanto o desespero quanto a esperança de Nagata. A diagramação e a letreiração são comparáveis ao original.
My Lesbian Experience with Loneliness é, com segurança, um dos títulos que mais recomendarei. Se você leu até aqui, compre um exemplar. Está disponível impresso e em EPUB pela BookWalker.
