A divisão Xbox da Microsoft enfrenta seu momento mais crítico em 25 anos de história. Satya Nadella, CEO da companhia, estabeleceu uma meta de margem de lucro mínima de 30% para o setor de games, um patamar considerado insano dentro da indústria, onde 10% já é visto como saudável. Fontes internas indicam que, caso essa exigência não seja cumprida em prazos apertados, a venda ou o desmembramento total da divisão Xbox se tornará uma possibilidade concreta. Asha Sharma, CEO do Xbox, e Matt Booty, chefe do Xbox Game Studios, já anunciaram um “reset” completo, que implica novas ondas de demissões em massa, fechamento de estúdios e cancelamento de projetos, enquanto estúdios como Ninja Theory, Compulsion Games e Double Fine negociam para tentar se desmembrar e voltar a ser independentes.
O ultimato de Satya Nadella: margem de 30% ou venda do Xbox
Desde que assumiu o posto de CEO da divisão Xbox, Asha Sharma tomou medidas que agradaram a base de jogadores: recuo nos preços das assinaturas do Game Pass, retomada de exclusivos e até a remoção do Copilot do console. No entanto, Sharma responde diretamente a Satya Nadella, e o CEO da Microsoft deixou claro que a época de subsídios acabou. Em entrevista ao evento Hard Fork do The New York Times, Nadella afirmou que o Xbox precisa se tornar economicamente sustentável e que a companhia não pode mais bancar uma divisão que, segundo ele, gera mais receita para o YouTube do que para a própria Microsoft.
O executivo indiano, obcecado por inteligência artificial generativa, impôs à divisão Xbox a mesma margem de lucro de outras áreas da Microsoft — entre 30% e 40%. O problema é que o mercado de games historicamente opera com margens muito mais apertadas. Fabricantes de consoles sempre venderam hardware com prejuízo, lucrando com a venda de software, assinaturas e a comissão sobre títulos de terceiros. A imposição dessa meta, iniciada em 2023 pela CFO Amy Hood, já causou estragos: aumento de até 100% nas mensalidades do Game Pass, fechamento de estúdios como Arkane Austin e Tango Gameworks, e demissões em massa.
Por que a Microsoft está exigindo 30% de lucro do Xbox?
A exigência de margem de 30% reflete a visão de Satya Nadella de que toda divisão da Microsoft deve gerar retorno comparável aos negócios de nuvem e inteligência artificial. O CEO teme que a empresa perca a corrida da inovação em IA e, por isso, quer redirecionar todos os recursos para soluções generativas. Como o Xbox historicamente opera com margens baixas (cerca de 3% no ano fiscal de 2026), a divisão é vista como um sorvedouro de caixa que poderia ser investido em IA. O ultimato é claro: ou o Xbox atinge a margem de 30% nos próximos meses, ou será desmembrado ou vendido para liberar capital.
Estúdios em desespero: Ninja Theory, Double Fine e Compulsion Games na corda bamba
O cenário se agravou com a publicação de um e-mail de Sharma e Booty no site Xbox Wire, avaliando os primeiros 100 dias da nova gestão. O documento classifica a situação atual como “insustentável”, citando decisões erradas do passado, como os bilhões de dólares gastos na aquisição de estúdios. A dupla anunciou um “reset” total, que deve resultar em mais demissões e fechamentos.
Segundo informações de bastidores, pelo menos três estúdios do Xbox Game Studios — Compulsion Games, Double Fine e Ninja Theory — estão negociando com a Microsoft para tentar se desmembrar e voltar a ser independentes. Tim Schafer, fundador da Double Fine, estaria entre os que propõem comprar suas próprias desenvolvedoras de volta para evitar o fechamento. A Ninja Theory, criadora da série Senua, teria recebido um ultimato: se não encontrar um comprador, será encerrada. O futuro do recém-anunciado novo jogo de Senua é incerto.
Funcionários desses estúdios foram orientados a buscar empregos em outras empresas, sinalizando que as negociações podem não ser bem-sucedidas. A própria Microsoft já demonstrou que não hesita em fechar desenvolvedoras: Arkane Austin (Redfall, Dishonored) e Tango Gameworks (Hi-Fi Rush, The Evil Within) foram desativadas mesmo após lançamentos aclamados pela crítica.
O fantasma da Arábia Saudita: MBS e o risco de um Xbox sob controle do PIF
Caso a Microsoft decida vender a divisão Xbox, os potenciais compradores são poucos. O nome que volta a circular é o do príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman (MBS), cujo Fundo Público de Investimentos (PIF) já desembolsou US$ 55 bilhões na compra da Electronic Arts. O PIF também controla a SNK, que prometeu independência criativa mas, na prática, passou a incluir elementos ligados à família real saudita em seus jogos, como o jogador Cristiano Ronaldo e o DJ Salvatore Ganacci.
A EA afirma que manterá o controle criativo mesmo sob o PIF, mas o histórico recente sugere o contrário. Caso o Xbox caia nas mãos de MBS, o mesmo destino pode se repetir: uma plataforma que, em tese, continuaria operando, mas sob forte influência política e comercial dos interesses sauditas. Para muitos analistas, essa é a pior das hipóteses para a base de jogadores.
As opções sobre a mesa: subsidiária independente, venda ou extinção
A situação atual oferece três caminhos possíveis para o Xbox. O primeiro é a transformação em uma subsidiária com capital e operação separados da Microsoft, modelo similar ao que a Sony adota com a divisão PlayStation. Isso permitiria ao Xbox buscar suas próprias margens de lucro e investidores, sem o peso da exigência dos 30% de Nadella.
O segundo cenário é a venda total da divisão para terceiros. Além do PIF saudita, gigantes como Amazon, Google ou Tencent teriam bolsos fundos para arcar com a operação, mas cada uma dessas empresas carrega seus próprios riscos e interesses estratégicos. O terceiro caminho, o mais drástico, é o desmembramento total: venda de estúdios e propriedades intelectuais separadamente, encerrando de vez a marca Xbox.
Sharma e Booty terão os próximos meses para apresentar resultados. Se a margem de lucro não subir dos atuais 3% para algo próximo dos 30%, a decisão final caberá a Nadella. E tudo indica que o CEO da Microsoft não terá piedade de uma divisão que, em sua visão, só atrapalha os planos de dominar o mercado de inteligência artificial.
Enquanto isso, a base de jogadores do Xbox acompanha cada movimento com apreensão. As mudanças já em curso — demissões, fechamentos e a possível venda de estúdios — indicam que o Xbox que conhecemos pode estar com os dias contados. A pergunta que fica é: o que restará da marca depois desse “reset”?
