Ataques à Coldcard roubam US$ 38,5 milhões em Bitcoin

Investidor perde US$ 51 mil em Bitcoin após carteira Coldcard ser drenada; suspeita recai sobre falha no gerador de números aleatórios.

Comunidade de criptomoedas debate se falha de entropia em carteiras Coldcard Mk3 foi responsável por roubo milionário.
Destaques
  • Um investidor perdeu 0,79 Bitcoin (US$ 51 mil) armazenados em uma Coldcard, segundo relato no Reddit.
  • Coldcard recomenda que usuários da Mk3 migrem fundos e evitem o método de rolagem de dados com menos de 99 lançamentos.
  • A suspeita principal é que o gerador de números aleatórios das Coldcard Mk3 tenha baixa entropia, permitindo ataques de força bruta.

Um investidor perdeu cerca de 0,79 Bitcoin (aproximadamente US$ 51 mil) que estavam armazenados em uma carteira de hardware Coldcard. A vítima, que se identifica como ‘s1ammage’ no Reddit, afirmou em estado de pânico que uma de suas carteiras foi completamente esvaziada, sem que qualquer ação tivesse sido tomada desde a sua criação, além do envio inicial dos fundos. O caso rapidamente ganhou tração nas comunidades do Reddit e do X (antigo Twitter), especialmente porque o endereço do suposto atacante recebeu cerca de 159 transações em apenas 24 horas, acumulando um total impressionante de 594 Bitcoins — o equivalente a US$ 38,5 milhões.

Comunidade debate possível falha nas carteiras Coldcard

Jameson Lopp, cofundador da Casa, foi procurado por outro usuário que também sofreu perdas parciais utilizando uma Coldcard, o que intensificou os rumores de que o problema reside nestes dispositivos. “Até agora, todos afirmam ser usuários da Coldcard. Fui contatado durante a madrugada por alguém que disse ter sofrido uma perda parcial em um dispositivo totalmente air-gapped, cuja seed foi gerada no próprio dispositivo, sem entropia fornecida pelo usuário”, relatou Lopp.

Uma das principais hipóteses levantadas aponta para uma possível falha de baixa entropia na geração de chaves. Um usuário resgatou um vídeo de 2023 que explicaria o mecanismo do roubo: as carteiras Coldcard permitiam que seeds fossem criadas usando “dice rolls” (rolagem de dados) sem exigir um número mínimo de lançamentos. “A Coldcard permite que você escolha usar apenas o gerador de números aleatórios interno, usar apenas dados ou usar o gerador interno combinado com algumas rolagens. Uma das mudanças que aconteceu no ano passado, com o lançamento da Mk4, foi que criar uma seed usando apenas dados passou a ser uma opção disponível diretamente no fluxo padrão de criação de uma nova seed, em vez de ficar escondida no menu de importação”, explicou o autor do vídeo.

Embora a carteira exibisse uma mensagem de aviso sobre os riscos, muitos usuários a ignoravam. O problema central dessa teoria é que carteiras com baixa entropia costumavam ser drenadas rapidamente, enquanto neste ataque recente alguns endereços estavam dormentes por mais de três anos, sugerindo um padrão de exploração diferente e mais metódico.

Investidores tentam entender como o roubo aconteceu

Outro detalhe que chamou a atenção da comunidade é que quase todos os endereços afetados utilizavam o formato bech32, iniciados por “bc1”. Essa padronização levantou a hipótese de um ataque direcionado exclusivamente a este tipo de endereço. Um usuário do X elaborou uma teoria detalhada: “Minha hipótese atual para os roubos envolvendo a Coldcard. O problema: Baixa entropia no gerador de números aleatórios (RNG), seja em uma biblioteca ou no próprio elemento seguro/chip. Pode afetar apenas um lote específico ou uma determinada versão do firmware. Provavelmente afeta a seed mnemônica. O atacante conhece a falha no RNG, mas não entende de Bitcoin. Ele pediu a uma IA para criar um script que fizesse força bruta e preparasse a varredura dos fundos. A IA testou APENAS caminhos de derivação BIP84 e APENAS um número limitado de níveis de profundidade. É por isso que estamos vendo apenas carteiras SegWit sendo roubadas e, às vezes, apenas parte dos fundos, em vez da carteira inteira.”

Essa explicação, ainda que especulativa, casa com o padrão observado: perdas seletivas e concentradas em endereços SegWit, sugerindo um script de varredura automatizado e imperfeito, que não esgotou todos os possíveis caminhos de derivação das carteiras.

Empresa se pronuncia sobre o assunto e reconhece possível vulnerabilidade

Apesar do fundador da Coinkite, desenvolvedora da Coldcard, ter inicialmente minimizado a situação, chamando os comentários de FUD, a empresa publicou um alerta oficial reconhecendo uma vulnerabilidade potencial. “Aviso de segurança da COLDCARD Mk3. Se você gerou uma seed em uma Mk3 com firmware 4.0.1 ou posterior, seus fundos podem estar em risco. Com base em nossa análise inicial, os modelos Mk4, Q e Mk5 não são afetados. Leia o aviso e faça a migração com cuidado”, diz a nota.

Em comunicado completo, a empresa especifica que o problema pode estar relacionado às carteiras Mk3 entre as versões de firmware 4.0.1 (março de 2021) e 5.0.3, a mais recente. Um ponto importante: se a seed afetada da Mk3 foi usada com uma passphrase BIP-39, a análise inicial indica que os fundos correm risco mínimo em relação a esse problema específico. A fabricante recomenda que os usuários movam seus fundos para uma nova carteira, agindo com calma e cuidado, e sugere que, na falta de outro dispositivo, é possível migrar usando a própria Mk3 vulnerável, embora o processo seja mais avançado.

A Coldcard não revelou a natureza exata da vulnerabilidade. Contudo, ao recomendar que os usuários da Mk3 continuem usando-a apenas com o método de rolagem de dados, exigindo um mínimo de 99 rolagens, fica implícito que a falha reside no gerador de números aleatórios do dispositivo, e não em erro do usuário. “Esse método dedicado usa diretamente o hash da sequência de lançamentos; ele não utiliza o gerador do dispositivo. Não use o fluxo normal New Wallet se seu objetivo for excluir o gerador do dispositivo”, orientou a empresa, fornecendo pistas claras sobre a origem do problema.

O caso expõe uma fragilidade crítica no ecossistema de hardware wallets: mesmo dispositivos considerados seguros podem abrigar falhas de implementação no gerador de entropia, o elo mais fundamental da segurança de criptomoedas. A combinação de um RNG comprometido, firmware desatualizado e a automação via IA para força bruta mostra que o cenário de ameaças evoluiu. Para o investidor brasileiro que utiliza Coldcard Mk3, a lição é clara: verifique a versão do firmware, entenda o método de geração da sua seed e, se houver qualquer dúvida, migre os fundos para uma nova carteira — de preferência um modelo mais recente ou com um processo de geração de chaves validado independentemente.

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